O Navio Fantasma

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Em julho de 1839, quando tinha 26 anos, Wagner morava nos arredores de Riga, com sua esposa Minna, e era diretor musical do teatro. Por essa época embarcou num pequeno barco prussiano, chamado Tetis, com destino à França, pois sua ambição era ver representada sua ópera Rienzi na Ópera de Paris, quando esperava triunfar e se ver livre das intrigas em que se envolvera nas pequenas cidades de províncias alemãs. Durante a viagem, houve uma violenta tempestade, e o capitão do “Tetis” se viu obrigado a procurar refúgio na costa norueguesa.

Wagner descreveu o episódio da seguinte maneira: “Quando me senti quase aliviado, quando vi a extensa costa rochosa, era para lá que o vento nos impelia violentamente. Um piloto norueguês veio ao nosso encontro em uma pequena embarcação e com mão segura tomou o comando do “Tetis”, graças ao que pouco depois tive uma das maiores impressões maravilhosas de minha vida. Aquilo que eu pensara ser uma linha contínua de montanhas, ao nos acercar, resultou em rochas separadas que se projetavam para o mar. Quando passamos delas, notamos que estávamos rodeados de arrecifes, não só pela frente como por trás, de maneira tal que parecíamos estar no meio de uma verdadeira cadeia de pedras. Essas rochas quebraram paulatinamente a ferocidade do furacão, que ia ficando cada vez mais para trás, pois as águas iam-se acalmando à medida que navegávamos por esse sempre cambiante labirinto rochoso. Finalmente, pareceu-nos estar sobre um lago tranquilo, quando fomos introduzidos em um fiorde, que a mim se assemelhou com a entrada do mar no fundo de uma profunda garganta pétrea. Uma indescritível sensação de satisfação me embargou a voz, quando os imponentes alcantilados de granito fizeram eco aos gritos da tripulação, enquanto soltava a âncora e baixava as velas. Senti os ritmos desse chamado como um bom augúrio, os quais se converteram no tema da canção dos marinheiros de “O Navio Fantasma” (ou, O Holandês Errante). A ideia da ópera fixou-se latente em minha imaginação e, devido às impressões experimentadas, lentamente começou a tomar forma poética e musical em minha memória.”

A lenda do Navio Fantasma ele a encontrou nas “Memórias do Senhor von Schnabelewopski”, de Heine. A história se refere a um capitão que jurou, apesar do mar tempestuoso, que o impedia, que dobraria o Cabo da Boa Esperança, mesmo que devesse navegar até o dia do juízo final. O diabo lhe tomou as palavras, e o dedicado holandês e sua tripulação se viram obrigados a navegar eternamente. A ação foi minuciosamente descrita por Heine, à qual agregou um elemento que não se encontrava em outras versões da lenda: a possibilidade de redenção através de uma mulher fiel. Foi seguramente este aspecto que primeiro despertou o interesse de Wagner, pois o conceito de “redenção pelo amor” voltaria a se manifestar em quase toda sua obra futura. Em 1839, foi editada a novela “The Phantom Ship”, do capitão Marryat, também, baseada na lenda do “Navio Fantasma”. Sir Walter Scott escreveu “The Pirate”, e, Fenimore Cooper, “The Reed Hover”, fazendo com que, no século XIX, a lenda do Holandês Errante, adquirisse forma literária. Wagner havia lido a história grega das viagens de Ulisses e seu desejo por regressar a sua pátria, a sua esposa e a seu filho. Sua ópera exemplifica as primeiras ideias do compositor sobre o caráter e o dilema da pessoa errante, com grande necessidade de redenção, que só por si não poderia encontrá-la em um mundo cristão, tal como Tannhäuser, e, anos depois, Kundry, em Parsifal. O holandês leva sobre os ombros a “dor universal” (Weltschmerz), só podendo ser redimido pelo amor de uma mulher fiel. Wagner, em plena juventude, compôs a música do Navio Fantasma em apenhas sete semanas. Deixou interessantíssimas e minuciosas notas sobre a concepção dos personagens e como deveriam ser interpretados.

Originalmente, a estória se passava na Escócia, mas Wagner, tendo passado por aquela tormenta na costa norueguesa, situou a ação nesse país. Impressiona, no decorrer da ópera, a Balada cantada por Senta, no segundo ato, que tem sido explorada pelos modernos cenógrafos, contrariando a afirmação e solicitação de Wagner para que o personagem Senta não deva se acentuar sob o aspecto sonhador de seu caráter, ou ser concebido de maneira muito sentimental, de uma moça enfermiça. Há produção do Navio Fantasma, sem navios, como se tudo não passasse de um sonho da perturbada Senta, muito sensível, por compaixão, à história do Holandês Errante, representada na balada e no quadro fotográfico existente na parede do salão da casa de seu pai, o capitão Daland.

Algumas deduções sobre o Navio Fantasma de Wagner:

  1. A paixão vale mais que o estoicismo e a dissimulação; se sincera, mesmo no mal, é melhor do que se render à moralidade da tradição;

  2. o homem livre pode ser tanto bom como mal, mas o homem submisso é uma vergonha da natureza e não participa de nenhum consolo terrestre ou celeste;

  3. o mundo futuro necessita também de arte e dela pode esperar também verdadeiras satisfações;

  4. a natureza aspira à metamorfose através do amor;

  5. o inquieto e desesperado holandês é redimido de sua agonia no amor compassivo de uma mulher que prefere morrer a lhe ser infiel.

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