Tannhäuser

Aviso: O tempo de download dos livretos em PDF ou ePUB variam, podendo demorar até alguns minutos dependendo da conecção, principalmente em tablets.

O estudo de diversas fontes gerou a ópera Tannhäuser, retirada das sagas alemãs restabelecidas pelos irmãos Grimm e de “Der getreue Eckart und der Tannhäuser” de Ludwig Tieck. Wagner conhecia o poema irônico “Der Tannhäuser”, de Heine, sobretudo o conto de E. T. Hoffmann “O Torneio dos Cantores”, relativo a um concurso de canções no castelo de Wartburg, com relato das atividades libidinosas de Tannhäuser, no Venusberg (o monte Hörselberg, na Turíngia), sua peregrinação a Roma, com vistas a obter o perdão do Papa, a fim de poder ser digno de corresponder à paixão da sobrinha do Landgrave, princesa Elisabeth, virgem e de coração puro. Explora os temas característicos da culpa, da expiação e da redenção pelo amor. Leu, também, um artigo sobre a reconciliação de Tannhäuser, sobre a obsessão de Vênus, de Heinrich von Oferdingen, de um dos concorrentes ao Torneio e Cantores de Wartburg, na Turíngia, perto do Höselberg, onde a antiga deusa Vênus era considerada em ter uma Corte de luxúria, numa gruta encantada. Wagner captou a ideia da ópera rapidamente e foi convencido de sua decisão quando, durante sua viagem de retorno de Paris a Dresde, na primavera de 1842, passou por Wartburg e idealizou a estrutura da partitura que ele já concebera mentalmente.

Em junho desse ano, ele e Minna estavam de férias em Teplitz, um local nas montanhas da Boêmia. Foi quando delineou as primeiras linhas dos temas musicais, o retorno à pátria da segunda cena, após ser levado pela sorte sobre sucessivos sons que lhe inspiram a volta do caminho da pátria sobre o rochedo. Ele se imagina no meio de peregrinos, no desfiladeiro, diante do som de gaita pastoril abaixo no vale. Assim, se vê na segunda cena em que Tannhäuser descortina a procissão dos peregrinos retardados carregando uma pesada cruz em marcha para Roma. Ele pensou em dar à ópera o nome de “Monte de Vênus”, todavia amigos em Dresde o convenceram a desistir desse intento por ser um termo familiar para designar uma parte íntima da anatomia feminina; assim, sua ópera poderia ser ridicularizada. Por essa razão ele a batizou de Tannhäuser. Suas óperas tratavam sempre da redenção pelo amor antes que do prazer voluptuoso, este considerado de sua parte como uma coisa irrealizável. Aqui, Vênus é uma deusa que não deve ser nem recusada nem adorada. Ela é bem mais uma força do mal que deve ser combatida e destruída.

Wagner começou a composição de Tannhäuser em julho de 1843, após o retorno de Teplitz. Suas obrigações em Dresde o impediram de terminá-la antes de 1845. Em 18/10/1845, conseguiu findar a partitura.

Wagner foi certamente o pai da “mise en scène” moderna na ópera. O papel principal foi atribuído a Joseph Tichatschek, um leal amigo, de uma magnífica voz, todavia, como ator, medíocre e ultrapassado para os seus desígnios. Era capaz unicamente de decorar os recitativos e a fonética. A prima do compositor, Johanna, interpretou Elisabeth. Vênus ficou a cargo de Wilhelmine Schöderdevrient, a grande soprano alemã da época. O sucesso foi retumbante.

Em 1860, Wagner fez uma grande revisão na ópera, depois que Napoleão III lhe encomendou uma produção do Tannhäuser para a Ópera de Paris. A obra deveria ser cantada em francês e possuir um ballet com grande destaque. Wagner colocou o ballet no primeiro ato, com uma Bacanal em Venusberg, tornando a abertura mais longa e mais frenética, o que desagradou os amantes do ballet, aficionados do Jockey Club de Paris, pois nunca iam à ópera antes do segundo ato. Na versão original, as direções cênicas orientavam para uma gruta com náiades se banhando, sereias reclinadas e ninfas dançando. Vênus aparece recostada num divã, sob uma luz rósea, tendo a seus pés Tannhäuser, com a cabeça em seu colo e apoiado sobre um joelho. Incentivadas pelas bacantes, as dançarinas chegam ao clímax de excitação orgástica. Também nessa versão foram acrescentadas as Três Graças e os cupidos; sátiros e faunos perseguem as ninfas, gerando frenesi. Instigados pelas Graças, os cupidos despejam sobre os participantes da Bacanal uma chuva de setas do amor, acalmando a situação. Mas, a nova música para as danças eróticas no Venusberg correspondiam ao espírito sedutor, típico de Wagner, e sua localização com a abertura teve um efeito dramático que ultrapassava de longe o que Wagner tinha escrito originalmente. Por isso, criou diferenças na partitura que passou a ser duplamente considerada: a versão de Dresde e a versão de Paris.

Historicamente, Elisabeth (1207-1231) era filha do rei André II da Hungria, a heroína do oratório de Liszt, a lenda de Santa Elisabeth. Com a idade de quatro anos, foi dada como noiva a Luís IV da Turíngia e elevada à condição de esposa quando tinha catorze anos. Seis anos mais tarde, seu marido partiu numa cruzada à terra santa e morreu muito jovem de uma febre intermitente. Elisabeth viveu como viúva em sua corte fazendo obras de caridade e foi por isso canonizada. Historicamente, todos os dois, ela e Tannhäuser, seriam muito jovens para haver participado do Torneio de Cantores em Wartburg que, pela sua origem, seria datado de 1207 para poder ser realizado sob a égide do Landgrave Hermann da Turíngia (1190-1217). Elisabeth foi predecessora das famílias principescas de Hesse, Dresde, Weimar e Coburg, esta última unida à família real de Londres. Mesmo assim, ele colocou na ópera a figurante Elisabeth, como princesa adotada pelo seu tio, o Landgrave Hermann da Turíngia, jovem, pura, católica e virgem.

O Torneio de Cantores ficou notabilizado através de uma pintura de 1300, que ilustra um poema, oferecida ao Landgrave Hermann e sua filha Sophie, que presidiu a competição entre Wolfran von Eschenbach, autor do mais célebre poema denominado “Parsifal”, Walther von Vogelweide (entre 1170-1230), provavelmente oriundo da Áustria, o mais ilustre de todos os minnesängers (trovadores), que era ligado ao Papa Innocent III; Reinmar del Alte, Joannes Biyerolf, este missionário da abjuração da fé, e Heinrich, que Wagner rebatizou como Tannhäuser. Ao centro do quadro está sentado o encantador Klingsor, da Hungria, que aponta Tannhäuser como o vencedor do concurso. Wagner retira o personagem Klingsor para integrar a sua última ópera, Parsifal. Os que conheceram a produção de Tannhäuser, de Götz Friedrich, representada em Bayreuth em 1972, e nos festivais dos anos seguintes (foi filmada em 1978), a consideram somente como uma ópera romântica alemã, no espírito de “Euryanthe” de Weber. Fica patente nessa produção que os dois objetos da paixão de Tannhäuser não seriam mais do que um só: a força do egoísmo pernicioso que representa Vênus, não mais a Deusa grega clássica da beleza, mas a influência maligna da grande idade média e das épocas seguintes. A outra é a piedosa Elisabeth, que está encasquetada pelo fogoso poeta Tannhäuser, que é afastado do Torneio de Cantores, após constatarem haver estado no Venusberg.

Algumas deduções sobre o Tannhäuser de Wagner:

  1. a “amante”, renunciando a toda felicidade pessoal, converte-se em santa através da transmutação celestial do amor e salva a alma do amado; antes de morrer, Elisabeth torna possível a redenção de Tannhäuser, que morre em seguida; a redenção não se consuma em vida mas na morte, no final da ópera (Wolfram mostrando o féretro que se aproxima, trazendo o caixão de Elisabeth, a Tannhäuser, este invoca a santa para que interceda por ele e cai sem vida. As últimas linhas do “Coro dos Peregrinos” narram um milagre: o báculo do papa floresceu, a alma de Tannhäuser está salva);

  2. os prazeres sensuais em excesso chegam a um ponto em que se exaurem (como na gruta de Vênus), e o homem prefere a libertação deles do que ser escravo deles;

  3. a vida na terra é multifacetada em termos da satisfação do homem em busca da felicidade;

  4. é como se nossa alma fosse igual a uma criança que nunca sabe o que faz, que quer tudo que não alcança e quando alcança não quer mais.

 

Comentários

Tannhäuser